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André Luiz Sena Guimarães

Categoria: Divulgação Cientifica Publicado em 21 Abril 2013 Super User
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O câncer de boca é um termo genérico para várias doenças neoplásicas malignas que acometem a boca. Neste texto abordaremos somente o Carcinoma de células escamosas que é o mais comum de todos os carcinomas localizados nessa região anatômica. Atualmente vários estudos vêm enfocando identificar marcadores genéticos em pacientes que apresentam câncer em boca que apresentam um comportamento clínico mais agressivo.

O estudo genético visa identificar variações do genoma humano e comprar com características das doenças. Neste sentido, nosso grupo de pesquisadores do PPGCS identificou em amostras de pacientes oriundos do norte do Estado de Minas Gerais uma variante polimórfica do gene HIF que está associado com a ocorrência de metástases (disseminação das células cancerosas). O gene HIF esta associado com a formação de vasos sanguíneos que seriam responsáveis pelo crescimento do câncer. Sendo assim os indivíduos com a doença que geneticamente têm mais tendência a ter o gene HIF mais ativo sinteticamente parecem desenvolver metástases locais mais rápido que os demais. Apesar deste achado ser muito interessante deve ser realizado um estudo semelhante em nível mundial e com o número alto de pacientes para validar o teste.

Os professores deste grupo agora estão focando em proteínas que estão associadas a angiogênese tumoral (formação de novos vasos sanguíneos que desenvolvem na periferia dos tumores) para tentar descobrir novos possíveis agentes terapêuticos moleculares para o câncer bucal. Estes agentes podem ser produtos naturais isolados ou até mesmo sintetizados como os microRNAs. Essas biomoléculas podem impedir a formação de uma proteína e conseqüentemente a ação da mesma. Porém, fazer com que o microRNA terapêutico atue somente nas células cancerosas ainda se encontra em um caminho com inúmeros pontos a serem esclarecidos. Após recursos oriundos da FAPEMIG, CNPq e FINEP, o PPGCS construiu uma estrutura de laboratórios de nível muito bom. Além disso, um projeto de ampliação de laboratórios no valor de R$ 1.600.000,00 já esta em execução.

O grande ponto positivo da ciência e tecnologia no Brasil é que se presta conta dos investimentos com produtos. Entre 2007 e 2010 o PPGCS produziu 218 artigos científicos e já formou 60 mestres, considerando tanto seu curso acadêmico, quanto profissional. Os professores do PPGCS acreditam que nos próximos 10 anos a UNIMONTES já poderá apresentar resultados que não eram sonhados a 5 anos atrás, inclusive aqueles voltados para a terapêutica de tumores. O Dr. André Luiz Sena Guimarães é professor, pesquisador e atualmente também é o coordenador do Laboratório de Pesquisa em Saúde do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde/Unimontes.   Para maiores informações, acesse o periódico Capes e consulte o artigo na íntegra:

FragaCA et al. A high HIF-1 expression genotype is associated with poor prognosis of upper aerodigestive tract carcinoma patients.Oral Oncol. 2011 Sep 24. [Epub ahead of print].

Ana Cristina de Carvalho Botelho

Categoria: Divulgação Cientifica Publicado em 21 Abril 2013 Super User
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As leishmanioses são zoonoses consideradas um problema de saúde pública, representando um complexo de doenças com importante espectro clínico e diversidade epidemiológica. São causadas por várias espécies de protozoários do gênero Leishmania (ROSS 1903). A transmissão da doença para os mamíferos ocorre pela picada das fêmeas dos flebotomíneos infecadas. Devemos considerar, também, que uma mesma espécie de Leishmania pode eventualmente determinar no homem um amplo espectro de manifestações clínicas, que vão desde formas frustras até lesões disseminadas de pele, nas mucosas ou a forma visceral. Seja como for, é importante salientar que as formas de leishmaniose, no Brasil, polarizam-se em dois grandes grupos clínicos: a leishmaniose tegumentar americana (LTA) e a leishmaniose visceral americana (LVA) ou calazar americano.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera que 350 milhões de pessoas estejam expostas ao risco de adquirir a doença. A susceptibilidade ou resistência do hospedeiro vertebrado à infecção está relacionada com a espécie de Leishmania e com os mecanismos imunonológicos do hospedeiro. A LTA constitui um problema de saúde pública em 88 países, distribuídos em quatro continentes (Américas, Europa, África e Ásia), e até 2002 afetando 12 milhões de pessoas. A OMS estima entre 1 e 1,5 milhões de novos casos de LTA anualmente. É ainda, considerada pela OMS como uma das seis mais importantes doenças infecciosas, desta forma, conhecer a população afetada pela LTA em nosso país é de fundamental importância para o estabelecimento de medidas eficazes de controle da doença.

A LTA é uma doença polimorfa da pele e das mucosas, com lesões ulceradas, únicas ou múltiplas, nodulares ou lesões cutâneo-mucosas. No Brasil, a LTA é uma das afecções dermatologias que merece mais atenção, devido seu alto coeficiente de detecção e capacidade de produzir deformidades. Não podemos esquecer que, o envolvimento psicológico, com reflexos no campo social e econômico, são fatores que aumentam a importância desta parasitose. A sua ampla distribuição com registro em todas as regiões brasileiras, e o aumento no número de casos registrados, variando de 3.000 (1980) a 37.710 (2001), confirma a sua importância para saúde pública. Picos de transmissão a cada cinco anos são observados e a partir de 1985 é registrada tendência de aumento do número de casos. Surtos epidêmicos têm ocorrido nas regiões Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e mais recentemente, na região Amazônica. Nos últimos anos, o Ministério da Saúde registrou uma média anual de 35 mil novos casos de LTA no país. Minas Gerais notificou 1922 casos de LTA no ano de 2003. Durante os anos de 2002 a 2010 foi registrado na Secretaria Municipal de Saúde no município de Montes Claros, o atendimento a 446 pacientes. No momento, é quase impossível combater a leishmaniose, utilizando-se um único enfoque. Um conjunto de fatores deve ser observado, tais como controle do vetor e a própria terapia antimonial, cuja administração induz severa toxicidade. A vacinação seria uma forma segura e eficaz para uma profilaxia impedindo a disseminação da doença. Assim sendo, o desenvolvimento de uma vacina que seja eficaz contra LTA, torna-se necessário.

Na orientação do Ministério da Saúde do Brasil, o antimonial pentavalente representa o fármaco de escolha para o tratamento de casos humanos de leishmanioses. No Brasil, o Glucantime® é o único antimonial pentavalente disponível. Por ser contra indicado em casos de pacientes cardiopias, nefropatias, senilidade e gravidez, vários outros recursos terapêuticos vêm sendo testados. Desde a introdução dos antimoniais na terapêutica das leishmanioses, inúmeros estudos vêm sendo realizados para se estabelecer o melhor esquema terapêutico. Estudos realizados pelo grupo do Prof. Mayrink mostra, que a associação do antimônio com um imunoterápico (imunoquimioterapia) induziu semelhantes índices de cura do tratamento padrão, e com a vantagem de reduzir a dosagem e o tempo de uso do antimônio consequentemente reduzindo os efeitos colaterais. O melhor esquema terapêutico e a falta do melhor critério de cura são pontos ainda bastante controversos no tratamento da LTA. Portanto, apesar da existência de tratamento, a quimioterapia para leishmaniose, não é, ainda, satisfatória. A completa cicatrização da lesão é o critério clínico de cura, contudo, este critério pode ser falho.

O relato do encontro de Leishmania sp, em material colhido na cicatriz, de pacientes tratados anos após a cura, mostra a grande importância de se estudar o perfil histopatológico das lesões para o entendimento da relação parasito-hospedeiro. O quadro histopatológico varia desde um infiltrado inflamatório de células mononucleares e neutrófilos até reações crônicas granulomatosas, com ou sem necrose. Podemos ressaltar que existe uma variação espacial nas respostas inflamatórias imune da LTA. As correlações geográficas podem ser vistas pela análise espacial entre as espécies predominantes de Leishmania e as formas mais frequentes de apresentação do espectro histopatológico, em diversas regiões do Brasil. Podemos então inferir a respeito de novas abordagens nos estudos de subpopulações de Leishmania em áreas com uma predominância de uma espécie e prover evidência das variações no comportamento biológico de diferentes espécies. As técnicas de imuno-histoquímica, usando anticorpos monoclonais, nos permitem investigar, diretamente na lesão, as células presentes no infiltrado inflamatório e associá-las às observações clínicas e histopatológicas. A avaliação histopatológica de lesões em casos humanos de LTA, antes e após o tratamento, mostra que o padrão histopatológico da cicatriz de indivíduos considerados curados, nem sempre se correlaciona com a cura anátomo-clínica. Estudos mostram que a imunidade celular desempenha um papel na cura das leishmanioses tegumentares. A interação do parasito com o sistema imune do hospedeiro é complexa.

Os mecanismos envolvidos na resposta imune dos portadores de LTA não estão claramente elucidados. A resposta imune celular, envolvendo interações entre linfócitos T e macrófagos, é considerada de grande importância na imunorregulação da leishmaniose cutânea. A cura estaria relacionada com o perfil Th1 e a susceptibilidade à doença ao desenvolvimento de resposta do tipo Th2. Tal dicotomia existente entre a resposta imune protetora ou não, provavelmente, se encontra sob a influência dos padrões de citocinas produzidas pelas diferentes subpopulações de linfócitos, sobretudo, durante a fase inicial da doença. O perfil imunofenotípico corrobora para a compreensão do desempenho do sistema imune do indivíduo. Com a utilização da biologia molecular em métodos de diagnóstico, informações complementares podem ser associadas às análises clínicas.

Os conhecimentos das sequências de DNA são explorados para o desenvolvimento de ensaios baseados na PCR (reação em cadeia da enzima polimerase) para o diagnóstico, para a identificação da espécie dos parasitos e na detecção do DNA do parasito após o tratamento. A expectativa de se obter informações sobre a resposta imune induzida nos indivíduos portadores de LTA, e naqueles tratados, o perfil imunofenotípico de células mononucleares da lesão, antes e após o tratamento estão corroborando para a compreensão do desempenho do sistema imune destes pacientes. A análise mais detalhada da secreção de citocinas e diferentes marcadores para o perfil célular pode lançar mais luz sobre as possíveis alterações induzidas por meio de tratamentos distintos sobre a resposta imune. A busca de novos caminhos com medidas para a melhoria deste grande problema de saúde pública é sempre bem vinda e justifica nosso trabalho. A Dra. Ana Cristian Carvallho Botelho é professora e pesquisador do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde/Unimontes.  
Para maiores informações, acesse o periódico Capes e consulte o artigo na íntegra:
Botelho AC
, Mayrink W, Oliveira RC. Alterations in phenotypic profiles of peripheral blood cells from patients with human American cutaneous leishmaniasis following treatment with an antimonial drug and a vaccine. Acta Trop . 2009 Nov;112(2):143-8. Epub 2009 Jul 22.

2 - Mayrink W, Botelho AC, Magalhães PA, Batista SM, Lima Ade O, Genaro O, Costa CA, Melo MN, Michalick MS, Williams P, Dias M, Caiaffa WT, Nascimento E, Machado-Coelho GL. Immunotherapy, immunochemotherapy and chemotherapy for American cutaneous leishmaniasis treatment.

Rev Soc Bras Med Trop. 2006 Jan-Feb;39(1):14-21. Epub 2006 Feb 23.

 

Kimberly Marie Jones

Categoria: Divulgação Cientifica Publicado em 21 Abril 2013 Super User
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Para que possamos compreender a realidade hoje existente no campo da saúde pública no Brasil e em Montes Claros é necessário que conheçamos alguns dos determinantes históricos envolvidos nesse processo. Nesse sentido, faz-se necessário entender como os contextos político-sociais que permearam o referido país, bem como as experiências vividas na cidade supracitada, especialmente a partir da década de 1970, contribuíram para o desenvolvimento de ideais, ações e planejamentos que desembocaram na criação de um Sistema Único de Saúde - SUS, que definiu a saúde como sendo um direito de todo cidadão brasileiro e uma responsabilidade do Estado. Não obstante, levando em consideração então, que o texto constitucional expressa claramente que a concepção do SUS estava pautada em uma formulação de um modelo de saúde voltado para as necessidades da população, torna-se mister perceber a consolidação do referido sistema, buscando identificar suas rupturas, seus avanços e retrocessos, especialmente no que se refere a garantia e promoção do bem estar social da população no que diz respeito ao acesso a um atendimento de saúde de qualidade. Justificando-se, portanto, a proposta do presente projeto.

O presente projeto de pesquisa tem como objetivo analisar as origens e o processo de fundação da saúde pública no Brasil, levando em consideração principalmente o caso da cidade de Montes Claros, quando da implantação do “Projeto Montes Claros”. Partimos do pressuposto que a reunião de diversos profissionais da área da saúde na cidade de Montes Claros, na década de 1970, contribuiu sobremaneira para fomentar as discussões sobre um ideal de saúde pública, bem como se constituiu em uma importante experiência prática catalisando ações que contribuíram para, na década subseqüente, uma institucionalização da saúde pública no Brasil. Ademais, o projeto visa compreender o processo de desenvolvimento do Sistema Único de Saúde do Brasil, identificando sua trajetória, desde a institucionalização, bem como seus avanços e retrocessos. Os procedimentos metodológicos privilegiarão a utilização de métodos qualitativos através da realização de entrevistas em profundidade semi-estruturadas com diversos profissionais da área de saúde pública da cidade de Montes Claros.

Adotamos como principal hipótese a questão das teorias e políticas desenvolvimentistas, além do papel desempenhado pelos profissionais e teóricos reunidos no Projeto Montes Claros, como principais fomentadores de uma política de saúde no Brasil, que resultou na criação do Sistema Único de Saúde, na constituição de 1988, com vistas a reduzir as disparidades de acesso à saúde, assim como garantir um atendimento de qualidade para todos os cidadãos brasileiros. Após duas décadas de um governo militar, o Brasil retomou um governo democrático em 1985 e aprovou uma nova Constituição, em 1988. Neste documento, a saúde foi declarada como um direito de todo cidadão brasileiro e responsabilidade do Estado.Contudo, um dos embriões dessa idéia já estava se desenvolvendo desde meados da década de 1970, quando um grupo de médicos politicamente ativos e profissionais em Montes Claros, no Brasil, elaborou um projeto que fomentava a implementação de uma rede pública de saúde. Tal projeto inspirou a iniciativa do Plano do Governo Federal e serviu de base para uma medicina socializada a qual foi denominada de Sistema Único de Saúde – SUS (SANTOS, 1995).

Desse modo, a saúde pública no Brasil abrange uma extensão tanto nas áreas urbanas quanto rurais. Ademais, algumas instituições privadas de saúde devem reservar um determinado número de leitos para o atendimento gratuito uma vez que recebem recursos do PRO-HOSP. Cabe salientar que desde a promulgação do SUS, a demografia da doença no Brasil e em Montes Claros “melhorou” em alguns aspectos e temos por hipótese que as mudanças estruturais relacionadas com o desenvolvimento de um trabalho social-democrata para enfrentar as desigualdades sócio-econômicas, no que diz respeito ao acesso à saúde, constituem um dos principais fatores para o incremento na saúde.

Em Montes Claros, por exemplo, a Universidade e o Hospital universitário são exemplos de prestação de serviços gratuitos na área da educação e saúde. Ao fazê-lo, essas instituições cumprem algumas das obrigações constitucionais do Estado para com os seus cidadãos. Diante disso, o presente estudo de caso ressoa com as modernas preocupações teóricas e práticas relacionadas com a correção das assimetrias de saúde. Além disso, Montes Claros triplicou de tamanho, devido à migração rural-urbana, desde o início do SUS, dentre outros fatores. Não obstante, a capacidade do sistema público de saúde local para servir os migrantes rurais que vieram para áreas urbanas serve como um exemplo importante para abordar as necessidades de saúde pública que emergiram com o processo de urbanização. No que diz respeito à abrangência das redes de atendimento primário, essa perpassa tanto as áreas urbanas quanto rurais. Assim, percebemos que o município de Montes Claros conta com 15 centros de saúde na área urbana, dentre outras unidades, e cinco Unidades do Programa de Saúde da Família. Diante disso, o presente projeto versa sobre a análise das origens e o processo de fundação da saúde pública no Brasil. Para tanto, faz-se necessário verificar o processo de formação do projeto de Saúde Pública Universal (SUS) no Brasil, bem como investigar os aspectos jurídicos, políticos, teóricos e práticos que viabilizaram o incremento no acesso aos cuidados com a saúde no Brasil e, sobretudo, em Montes Claros.

A pesquisa dar-se-á mediante o uso de metodologia qualitativa, consistindo na realização de entrevistas semi-estruturadas com 27 informantes, dentre esses professores, profissionais e gestores públicos na área da saúde em Montes Claros. A coleta de dados via entrevistas em profundidade visa captar relatos de experiência, conhecimentos técnicos, bem como concepções dos entrevistados sobre o SUS. Para tanto, será utilizado o método de amostragem “bola de neve” em que um informante indicará outro que considera parte fundamental para o processo investigativo. Esses dados serão analisados usando o software ATLAS.ti para a organização e analise de dados textuais.

A Dra. Kimberly é professora e pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde/Unimontes.

Para maiores informações, consulte o artigo: LIMA, F.V. et al. Etnografia histórica das ações de saúde no Brasil: um estudo de caso sobre o Projeto Montes Claros http://www.sistemasmart.com.br/ram/arquivos/ram_GT63_Fernanda_Veloso_Lima.pdf

Sérgio Henrique Sousa Santos

Categoria: Divulgação Cientifica Publicado em 21 Abril 2013 Super User
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A síndrome metabólica (SM) é um quadro de alterações complexas no metabolismo que envolve a coexistência variável do quadro de resistência à insulina com intolerância a glicose, aumento nos níveis plasmáticos de colesterol e triglicérides, hipertensão, obesidade, dentre outras alterações no metabolismo do organismo. Sabe-se também que em muitas dessas doenças ocorre uma hiperativação do braço vasoconstritor e proliferativo do sistema renina-angiotensina (SRA), um importante sistema hormonal do nosso organismo, cujo mais bem descrito componente biologicamente ativo é a Angiotensina II agindo via seu receptor específico AT1.

No Brasil, a exemplo do que ocorre em todo o mundo, problemas relacionados a mudanças no estilo de vida e possíveis fatores que influenciam a síndrome metabólica têm gerado preocupações, pois causam perdas sociais e geram custos adicionais para a sociedade, para o indivíduo portador e para o sistema de saúde. No Brasil dados publicados em 2011 pelo Ministério da Saúde apontam que mais de 50% da população brasileria já apresenta sobrepeso e mais de 15% das pessoas são obesas. Apesar da importância da síndrome metabólica como forma de identificar riscos de doenças cardiovasculares que representam à primeira causa de morte no Brasil (respondendo por 30,8% dos óbitos), ainda não existe um tratamento farmacológico para a SM. Estudos recentes mostram que o SRA não é importante apenas na regulação da pressão arterial e homeostasia cardiovascular, mas que esse complexo sistema hormonal está envolvido em diversas funções do organismo.

Outro importante efetor desse sistema é a Angiotensina-(1-7) [Ang-(1-7)]. O heptapeptídeo Ang-(1-7) agindo via seu receptor específico o Mas, apresenta uma série de ações antagônicas às da Ang II (como vasodilatação e efeito antiproliferativo), inclusive em estados patológicos, funcionando assim como um braço contra-regulador dentro do SRA. Já foram descritas varias interações da Ang II com a insulina, com o metabolismo e com a função endócrina do tecido adiposo. Membros do nosso grupo de pesquisa e pesquisadores da UFMG demonstraram recentemente que o camundongo com deleção genética do receptor Mas apresenta um quadro semelhante ao de síndrome metabólica, apresentando aumento do tecido adiposo, dislipidemia, resistência à ação da insulina, hipertensão, dentre outras alterações. Esse foi o primeiro trabalho correlacionando a Ang-(1-7) e o receptor Mas com o metabolismo (Santos et al. 2008).

O estudo foi publicado na “Diabetes”, umas das mais importantes revistas científicas para o estudo do metabolismo no mundo. No entanto, não existiam estudos sobre o efeito do aumento do nível de Ang-(1-7) circulante no organismo sobre o controle do metabolismo e na regulação hormonal do tecido adiposo. No último ano realizamos uma avaliação do metabolismo basal de ratos com alteração genética que possuem um aumento circulante de duas vezes e meia nos níveis de Ang-(1-7). Este animal apresenta, já no estado basal, uma melhora da sensibilidade à insulina, diminuição da gordura visceral, redução dos níveis de colesterol e um perfil metabólico bastante melhorado (Santos et. al. 2010). Estes resultados abrem uma grande perspectiva de que um novo tratamento para a SM e melhora do metabolismo esteja a caminho. Novas pesquisas estão sendo realizadas para avaliar a associação da SM e Ang-(1-7) com o diabetes e com dietas. Foi encaminhado ao “comitê de ética em pesquisa” um novo projeto para o teste do uso de uma substância derivada da Ang-(1-7) por via oral em humanos.

O Dr. Sérgio Santos atualmente é professor, pesquisador do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde/Unimontes e do Departamento de Farmacologia da UFMG.   Para maiores informações acessem o periódico Capes e consultem os artigos na íntegra: (2008). "Mas deficiency in FVB/N mice produces marked changes in lipid and glycemic metabolism." Diabetes 57(2): 340-347. >- Santos, S. H., J. F. Braga, et al. (2010). "Improved lipid and glucose metabolism in transgenic rats with increased circulating angiotensin-(1-7)." Arterioscler Thromb Vasc Biol 30(5): 953-961

Alfredo Maurício Batista de Paula

Categoria: Divulgação Cientifica Publicado em 21 Abril 2013 Super User
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O Carcinoma de células escamosas é o câncer mais freqüente da mucosa do trato aerodigestivo superior (boca, orofaringe, hipofaringe e laringe). Esse tipo de câncer representa o principal problema de saúde publica em alguns países (com destaque para a Índia) e, no Brasil, ele também representa um sério problema de saúde publica. Em nosso país ele representa a 8ª neoplasia maligna mais freqüente nos homens e a 9ª mais freqüente nas mulheres. Causador de grandes taxas de mortalidade e de morbidade, o Carcinoma de células escamosas do trato aerodigestivo superior apresenta uma etiopatogenia complexa na qual uma série de fatores ambientais associados á baixo status sócio-economico-cultural (leia-se pobreza; vou falar sobre isso em um próximo artigo), hábitos tabagista e etilistas crônicos, dificuldade de acesso aos serviços de saúde/profissionais qualificados, má higienização bucal, exposição crônica à radiação ultravioleta, baixa ingestão de frutas e legumes, entre outros fatores, combinados com uma série de distúrbios moleculares genéticos e epigenéticos que contribuem conjuntamente para o surgimento e o desenvolvimento dessa neoplasia maligna.

Polimorfismos alélicos representam variações na seqüência de nucleotídeos em uma determinada região (loci) dos nossos cromossomos (DNA). Cada célula diplóide apresenta pares de cromossomos homólogos, aonde cada cromossomo veio da contribuição do pai (espermatozóide) e da mãe (óvulo). Em cada par de cromossomos, os dois homólogos possuem genes para os mesmos caracteres, por exemplo, um gene que codifica ao longo de um processo uma proteína que atua na proliferação celular ou que define a intensidade da pigmentação da nossa pele. Embora nossos cromossomos homólogos sejam bastante similares entre si, em determinados loci pode haver variabilidade na seqüência do DNA. Se essa variação for encontrada em uma freqüência superior a 1% da população, ela caracterizará o polimorfismo. Caso essa variação seja inferior a essa taxa, ela será considerada uma mutação. Por causa desta variabilidade na seqüência de nucleotídeos, os polimorfismos representam a principal causa da grande diversidade dos indivíduos dentro de uma mesma espécie.

Uma das maneiras de se identificar as variações polimórficas em uma determinada seqüência do DNA (por exemplo, uma sequência específica de nucleotídeos de um determinado gene) tem sido o emprego da técnica de reação em cadeia da polimerase (do inglês polymerase chain reaction - PCR), com a utilização de enzimas de restrição. A PCR é um método de amplificação (de criação de múltiplas cópias) de uma sequência alvo do DNA. As enzimas de restrição são responsáveis por atuar sobre essa seqüência alvo especifica no DNA e dependendo da variação polimórfica encontrada, esta determinada enzima pode clivar ou não a sequência alvo que se está investigando. Ocorrendo as clivagens, haverá a geração de fragmentos do DNA alvo, com diferentes pesos moleculares e cargas elétricas, que serão separados com a utilização de géis sob um campo eletroforético.

Destaco aqui duas razões para se pesquisar os polimorfismos alélicos, com especial interesse à oncologia: certas variantes polimórficas podem determinar um quadro de resistência ou de susceptibilidade nos indivíduos á ação de fatores de risco, herdados ou ambientais, para inúmeras doenças neoplásicas humanas. Outro motivo reside na responsabilidade de certas variantes polimórficas de certos genes influenciarem diferentes respostas dos indivíduos quando esses já se encontram afetados por certo tipo de câncer. Assim, o mesmo tipo de câncer pode se manifestar de forma mais controlada, menos agressiva, enquanto em outros indivíduos, a doença é capaz de promover um curso clínico mais agressivo, impactando negativamente sobre a qualidade de vida ou mesmo a sobrevida dos mesmos.

O gene do fator de necrose tumoral-alfa (TNF-), codificador de uma proteína homônima, exibe um importante polimorfismo de nucleotídeo único na posição -308 de sua região promotora, responsável pela regulação de eventos pré- e pós-transcricionais. As variações polimórficas do TNF- nessa posição resultam em duas formas alélicas que podem conter o nucleotídeo guanina (G; forma mais comum) ou o nucleotideo adenina (A; variante menos comum). Devido a isso, com a técnica da PCR, com restrição pelo tamanho dos fragmentos, os indivíduos podem ser separados como possuidores dos seguintes haplótipos: GG (fragmentos de 87 e 20 pb), AG (fragmentos de 107, 87 e 20 pb) ou AA (fragmento único de 107 pb, pois não sofre clivagem pela enzima de restrição). A figura vista acima representa exatamente a identificação dos fragmentos (bandas) correspondentes às variantes polimórficas para a região -308 do TNF-. Tem sido demonstrado na literatura, que indivíduos com o haplótipo AA (que herdaram de ambos os pais o cromossomo contendo o alelo A na posição -308 na região promotora do gene) apresentam uma menor capacidade de produzir a citocina TNF-, por isso esse polimorfismo é considerado funcional. Essa variabilidade polimórfica para este gene tem sido associada com o surgimento e também com o comportamento clínico-biológico de algumas formas de câncer, mas que, de uma maneira geral, ainda muito pouco explorada para o carcinoma de cabeça e pescoço.

Em um estudo recente realizado pelo nosso grupo de pesquisa (Corrêa et al., 2011) foi demonstrado que algumas variantes polimórficas alélicas do fator de necrose tumoral alfa (TNF-alfa) apresentou uma associação significativa com alguns fatores clínicos que são classicamente investigados em estudos de avaliação prognóstica em grupos de indivíduos com o Carcinoma de células escamosas do trato aerodigestivo superior. Em uma amostra de indivíduos (n= 89) afetados pela doença, a presença do alelo A e do haplótipo AA foi associada a fatores clínicos de pior prognóstico: pior estado físico dos pacientes; lesão primária localizada na região posterior do trato aerodigestivo superior (orofaringe, hipofaringe e laringe); lesão primária de grande tamanho clínico (lesões maiores que 4 cm de diâmetro) e doença metastática. Os dois últimos fatores afetaram negativamente a sobrevida global dos pacientes (os indivíduos viveram menos após um período de acompanhamento de cerca de xxx dias). De forma interessante, a avaliação estatística bivariada dos nossos dados demonstrou que o haplótipo GA também determinou uma menos sobrevida dos indivíduos afetados pela malignidade. Dessa forma, nossos dados sugeriram que a presença do nucleotídeo adenina e do haplótipo AA poderia contribuir para um quadro de maior agressividade clínica desse tipo de carcinoma que afeta o trato aerodigestivo superior.

A identificação de biomarcadores que possam predizer com grande confiabilidade para os profissionais, os pacientes e seus familiares sobre o comportamento clínico-biológico dessa neoplasia maligna e seu impacto prognóstico tem sido intensamente investigados, sobretudo com a utilização de técnicas laboratoriais de biologia molecular. Embora nosso estudo tenha trazido importantes informações sobre a participação do gene TNF- sobre o comportamento clinico-biológico do carcinoma de células escamosas, devemos considerar algumas limitações do estudo, com destaque para a realização de um estudo com desenho transversal, onde a relação de causa/conseqüência é difícil de ser determinada. Nosso objetivo agora, com relação a esse gene, será o de investigar a influencia dessas variantes nos indivíduos expostos ou não aos fatores de riscos clássicos da doença neoplásica a partir de estudos com perfil longitudinal. Outra ação será a de identificar e quantificar a proteína TNF- de forma sistêmica e localizada e analisar esses dados juntamente com informações sobre os mecanismos epigenéticos que podem promover a ativação ou silenciamento do gene. A avaliação dessas propostas em estudos experimentais também nos parece promissora e já tem dados seus primeiros passos dentro da nossa própria Universidade, com atuação de novos acadêmicos em trabalho de iniciação científica, mestrandos, doutorandos e colegas pesquisadores.

Até a próxima.

O Dr. Alfredo Maurício é professor, pesquisador e atualmente também é o coordenador do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde/Unimontes.

Para maiores informações, acesse o periódico Capes e consulte o artigo na íntegra:

- Corrêa GTB, et al. Association of -308 TNF-α promoter polymorphism with clinical aggressiveness in patients with head and neck squamous cell carcinoma. Oral Oncol. 2011; Sep 47(9): 888-94

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